II Cruzeiro Religioso dos Avieiros e do Tejo – Reportagem

Sábado dia 17 de Maio foi o dia escolhido para começar o II Cruzeiro Religioso dos Avieiros e do Tejo. No ano passado os pescadores partiram de Constância rumo a Lisboa, carregando nas suas embarcações a imagem da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo. Este ano a primeira etapa foi de Alvega ao Rossio, marcando a saída dos barcos do cais da Praia Fluvial de Alvega pela primeira vez. Receberam-se os pescadores, benzeram-se os barcos e depois de almoço lá foram os peregrinos descer o Tejo debaixo de um sol quente a adivinhar Verão.

Este cruzeiro é um esforço conjunto entre as comunidades avieiras e 12 entidades diferentes, incluindo as Juntas de Freguesia e Municípios ao longo do Tejo. Em termos de associações, dão o seu apoio, entre tantas outras, a APCA (Associação para a Promoção da Cultura Avieira), a AIDIA (Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça) e a Associação Envolve, que, representada pela Tânia Piçarra, ajudou a coordenar a 1ª e parte da 2ª etapa e conseguiu trazer o evento até ao cais de Alvega, fazendo a ponte entre a organização e a União das Freguesias de Alvega e Concavada.

Mas esta é mais do que uma simples peregrinação. Numa pequena conversa informal, João Serrano, um dos coordenadores do cruzeiro – juntamente com Lurdes Véstia com quem também partilha responsabilidade no Projecto da Cultura Avieira, formado a partir da AIDIA em 2006 e sediado no Instituto Politécnico de Santarém – explica-nos melhor a importância deste evento.

Uma das razões é o afastamento que várias das localidades junto ao Tejo têm sofrido em relação ao rio. João considera que as populações estão “desligadas dos problemas do Tejo e dos seus ecossistemas” – este evento é um esforço de alerta para a resolução desses problemas, como a poluição e o caudal pouco navegável, entre outros. O segundo principal motivo é o de divulgar a Cultura dos Pescadores Avieiros, uma cultura rica e única do rio Tejo e do rio Sado.

Conhecidos popularmente por “ciganos do Tejo” os Avieiros sempre foram comunidades muito fechadas em assentamentos ao longo do rio. Tão fechadas eram, que não havia mesmo casamentos fora da comunidade. “Maria Michaela Soares estimava que haveria cerca de 80 assentamentos desde Poço do Bispo em Lisboa até aqui à zona de Alvega. Na Junta de Freguesia do Rossio existe um documento de 1949 do ‘sub-chefe dos Guarda-rios’ que fez o levantamento de mais de 60 assentamentos com uma estimativa de 2200 pessoas.”, conta-nos ainda João enumerando uma grande lista de assentamentos que mesmo hoje são povoados, como Palhota no Cartaxo e Caneiras, perto de Santarém.

Mas os seus olhos iluminam-se é a falar da gastronomia. Aquele sável na telha, embrulhado em folha de cove e cozido numas telhas enterradas envoltas de brasas quentes é um sabor que João conhece muito bem desde pequeno. Este é, aliás, um dos nossos pratos tradicionais aqui da zona de Alvega e Concavada, o que só fortalece as nossas ligações à cultura avieira – uma cultura que se estabeleceu desde o início do século XIX e que não se limita à comida, mas também às casas típicamente construídas em madeira e estacaria junto ao Tejo, bem como os barcos. Construídos apatir de uma matriz dos pescadores varinos no século XVIII que vieram de Liz e Aveiro e que trouxeram também a famosa “bateira de dois bicos” para esta zona, acabaram por se formar 11 tipos diferentes de embarcações ao longo do Tejo de acordo com a localização geográfica dos assentamentos.

Isto demonstra a diversidade desta cultura única, que além dos seus pratos tem também os seus costumes e tradições. Foi por isso que “depois de muitos anos de trabalho – voluntário [risos] – apresentámos a candidatura da Cultura Avieira a património nacional e material, onde o processo se encontra em curso desde 2009.” Quando questionado sobre as implicações da aprovação a património nacional, João garantiu que isso “obrigará à restauração das aldeias avieiras” – para o qual existem já projectos desenvolvidos voluntariamente pelo braço português da Associação Arquitectos Sem Fronteiras. Além disso, tendo em conta que é uma cultura única do Tejo e do Sado, a recuperação destas aldeias poderá levar a um aumento do turismo, especialmente no interior.

Foi também para reforçar este sentido de cultura e de pertença que a Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo foi “criada” pelo Projecto de Cultura Avieira – “Parida por nós!”, intervém Lurdes a gerar alguns risos. João esclarece: “A Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo é uma materialização, ou manifestação, da religiosidade e cultura avieiras e foi criada por nós mas com o apoio das comunidades e do Bispo de Santarém”. A Nossa Senhora foi assim criada a 5 de Maio do ano passado, mesmo a tempo do 1º Cruzeiro Religioso. A escultura em si, no entanto, data de muito antes e terá sido esculpida pelo mesmo artista que esculpiu a de Nossa Senhora de Fátima.

“Quando falámos com o Bispo ele alertou para uma imagem que não estava a ser usada e nós ao ver soubemos imediatamente que teria que ser aquela. O barco, as águas revoltas do Tejo, o pescador e a ‘camarada’ [como os avieiros chamam às mulheres] com as mãos no peito e a Nossa Senhora que lhes apareceu em cima de uma nuvem…” Mas ainda assim foram precisas algumas alterações. Acrescentou-se o boné do pescador e pintou-se-lhe a camisa aos quadrados, acrecentou-se o lenço à “camarada” – atado como dita a tradição avieira – , e tanto a camisola como a saia dela tiveram que obedecer às cores e padrões típicos.

Portanto o empunhar da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo numa descida do rio, é mais que uma simples procissão religiosa. É um grito e um chamado de atenção para esta cultura unicamente nossa que aos poucos vai caindo no esquecimento. É um grito pelo Tejo, que aos poucos também se vai vendo abandonado e esquecido por uma população que tanto dependeu e ainda hoje depende dele. É um abrir de olhos.

Mas não demorou muito até ao longe começaram a chegar aos poucos os peregrinos. Atracaram os barcos ao cais e quando estava toda a gente começou a pequena cerimónio do baptismo dos barcos.

Depois de um almoço rápido, era cerca das 14:30 quando os barcos seguiram em direcção ao Rossio. A Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, infelizmente, só entraria para os barcos nas Mouriscas. Algumas partes do Tejo em frente tinham bastantes rochas e havia um certo medo de a imagem cair. Assim jogou-se pelo seguro e ela chegou são e salva por volta das 17:45 ao cais do Aquapolis Sul – em pleno Mercado Ribeirinho. Aqui começou imediatamente a procissão que a iria levar para a igreja do Rossio liderada pelos escuteiros.


Já dentro da igreja alguns envolvidos no projecto comoveram-se enquanto o padre disse algumas palavras em homenagem da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo. E assim ficou entregue à ireja do Rossio, onde ficará alguns dias até ao começo da 2ª Etapa do Cruzeiro. Afinal de contas, apesar de ter a matriz na Praia da Avieira de Leiria, a Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo é uma imagem peregrina. Não pertence a uma terra; pertence ao Tejo, e a todos a ele ligados.

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