António Botto

botto

António Thomaz Botto é um poeta e escritor conhecido internacionalmente e também uma importante figura da Literatura Portuguesa. Nasceu a 17 de Agosto de 1897 numa pequena aldeia do concelho de Abrantes chamada Concavada e morreu a 16 de Março de 1959, no Rio-de-Janeiro.

 

VIDA

Viveu em Concavada até cerca dos seus 11 anos com os pais Maria Pires Agudo e Francisco Thomaz Botto, que trabalhava como “marítimo” ou fragateiro no rio Tejo. Foi em 1908 que a sua família se mudou para Alfama, onde cresceu rodeado do ambiente popular e festeiro pelo qual o bairro lisboeta é conhecido – e que muito acabou por lhe influenciar a obra.

Em adulto não recebeu muita educação formal, pelo que grande parte do tempo trabalhou em livrarias, onde acabou por se cruzar com muitas das personalidades literárias da época. Também trabalhou como funcionário público, cargo que acabou por o levar para Santo António do Zaire e mesmo Luanda, na antiga colónia de Angola entre 1924-25.

Apesar de casado com Carminda Silva, o poeta era assumidamente homossexual e a sua obra mostrava isso – o que lhe ganhou um estatuto de persona non grata aos olhos tanto da sociedade como da Igreja. A 9 de Novembro de 1942 foi na verdade despedido do trabalho não só por desobedecer a ordens e escrever e recitar versos durante as horas de trabalho, mas também por falar com um colega de forma considerada inapropriada, denunciando as suas tendências homossexuais – agressivamente reprovadas pela sociedade da altura. Quando leu o anúncio público mostrou-se desanimado e ironizou: “Agora sou o único homossexual reconhecido em Portugal…”

Tentou sustentar-se economicamente através da escrita, mas sofrendo de sífilis terciária e recusando-se a trata-la, a sua saúde foi piorando progressivamente, e com ela o brilhantismo da sua poesia. Eventualmente cansou-se da perseguição pública e decidiu emigrar para o Brasil. Para arranjar dinheiro em Maio de 1947 deu dois grandes recitais de poesia em Lisboa e no Porto que foram um grande sucesso e elogiados por figuras da época como Amália Rodrigues, João Villaret e Aquilino Ribeiro. A 17 de Agosto, no dia do seu 50º aniversário, ele e a família embarcaram para o Brasil.

Primeiro moraram em São Paulo e depois em 1951 mudaram-se para o Rio-de-Janeiro, mas a estratégia de sobrevivência era a mesma: escrever artigos e colunas para jornais, fazer alguns programas de rádio e recitais de poesia – começando em teatros, e acabando em tavernas baratas. A doença piorou, com ela o talento, e tudo começou a contribuir para uma megalomania crescente, ao ponto do delírio, comprovado por algumas das histórias que contava. Em 1954 ainda tentou ser repatriado, mas acabou por desistir porque não tinha dinheiro para a viagem, e em 1956 foi hospitalizado.

A 4 de Março 1959 foi atropelado por um carro enquanto atravessava a Avenida Copacabana no Rio-de-Janeiro e morreu no dia 16 por volta das 5 horas da tarde no Hospital da Beneficiência Portuguesa. Mas os seus restos mortais apenas seriam transladados do Brasil para Lisboa em 1966, onde desde 11 de Novembro desse ano estão enterrados no Cemitério do Alto de São João. Hoje, em sua memória existe a Biblioteca Municipal António Botto em Abrantes, e um busto seu com uma singela dedicatória da população no principal jardim da Concavada, e ainda uma rua com o seu nome – onde ainda existe a casa em que nasceu.

 

OBRA

Escreveu ficção e teatro, mas a maior parte da obra de António Botto é poesia e centra-se principalmente nos temas do quotidiano em Alfama e a beleza masculina, muitas vezes a roçar o erótico. Publicou o seu primeiro livro de poemas, “Trovas”, em 1917, “Cantigas de Saudade” no ano seguinte e “Canções do Sul” em 1920. Mas foi “Canções” que causou polémica.

Quando foi originalmente lançado em 1921, passou completamente despercebido no panorama literário português; foi preciso Fernando Pessoa decidir publicar uma segunda edição através da sua editora “Olisipo” para o escândalo público começar a espalhar-se pela sociedade Lisboeta. A contribuir para isso, Pessoa acompanhou o lançamento do livro com um artigo provocativo no jornal “Comtemporânea” onde elogiava a coragem e sinceridade de António Botto por cantar desavergonhadamente o amor homossexual como um verdadeiro seguidor do Esteticismo.

A reacção da sociedade portuguesa da década de 20 foi exactamente o que se esperava: os conservadores reagiram e queixaram-se às autoridades sobre a imoralidade do livro – que acabou por ser apreendido em 1923 –, estudantes de colégios católicos chegaram a exigir um auto-de-fé ao livro, e houve ainda quem sugerisse que Botto deveria ser enforcado. Foi Pessoa que liderou a defesa do poeta, seguido de artistas e intelectuais da altura, em vários artigos polémicos que apesar disso não ficaram sem resposta. Felizmente o escândalo acabou por cessar, e no ano seguinte a proibição do livro foi levantada.

Depois de ser despedido do trabalho em 42, Botto viu-se forçado a escrever para sobreviver. Escreveu não só artigos e colunas para jornais, como também vários livros, como “Os Contos de António Botto” e “O Livro das Crianças”, uma colecção de pequenas histórias para crianças que vendeu muito bem e que seria depois oficialmente aprovado como leitura escolar na Irlanda (“The Children’s Book, traduzido por Alice Lawrence Oram).

Em 1955, já no Brasil e quatro anos antes de morrer, escreveu o célebre “Hino de Nossa Senhora do Rosário de Fátima” (mais conhecido por “Avé de Fátima” ou cântico “A Treze de Maio”) – um dos hinos a Nossa Senhora de Fátima mais conhecidos pelo mundo inteiro –, a fim de tentar recuperar algum favor da igreja que havia perdido e também de angariar algum dinheiro para a sua repatriação.

É importante também referir que, além do apoio que encontrava em figuras nacionais como Fernando Pessoa, José Régio, Camilo Pessanha e Teixeira de Pascoaes, a obra de António Botto foi também aplaudida internacionalmente por personalidades como Antonio Machado, Miguel de Unamuno, Virginia Woolf, Luigi Pirandello, Stefan Zweig, Rudyard Kipling, James Joyce e Federico García Lorca.

 

BIBLIOGRAFIA

1917 – Trovas (poemas)

1918 – Cantiga de Saudade (poemas)

1919 – Cantares (poemas)

1920 – Canções do Sul (poemas) – com um estudo de Jayme de Balsemão

1921 – Canções (poemas) – com um prefácio de Teixeira de Pascoaes

1922 – Canções – 2ª edição pela editora Olisipo de Fernando Pessoa (ou conhecido por As Canções de António Botto até 1956)

1924 – Curiosidades Estéticas (poemas)

1925 – Piquenas Esculturas (poemas)

1927 – Olimpíadas (poemas)

1928 – Dandysmo (poemas)

1929 – Antologia de Poemas Portugueses Modernos (com Fernando Pessoa)

1931 – O Livro das Crianças (contos para crianças)

1933 – Alfama (teatro); António (teatro)

1934 – O Meu Amor Pequenino (contos); Ciúme (poemas)

1935 – Dar de Beber a Quem Tem Sede (contos); A Verdade e Nada Mais (antologia para crianças); The Children’s Book (O Livro das Crianças) – traduzido por Alice Lawrence Oram e ilustrado por Carlos Botelho)

1938 – A Vida Que Te Dei (poemas); Os Sonetos de António Botto (poemas)

1940 – O Barco Voador (contos); Isto Sucedeu Assim (romance)

1942 – Os Contos de António Botto para Crianças e Adultos (contos)

1943 – A Guerra dos Macacos (contos)

1945 – As Comédias de António Botto (teatro)

1947 – Ódio e Amor (poemas)

1948 – Songs (Canções) – traduzido por  Fernando Pessoa

1953 – Histórias do Arco da Velha (contos para crianças)

1955 – Teatro; Fátima Poema do Mundo

1999 – As Canções de António Botto – edição pela Presença (esgotado)

2008 – Canções e outros poemas – edição pela Quasi Edições

2008 – Fátima – edição pela Quasi Edições

2010 – Canções: António Botto. Tradução para o inglês: Fernando Pessoa. Edição, prefácio e notas: Jerónimo Pizarro e Nuno Ribeiro. – reedição da tradução original para o Inglês por Fernando Pessoa

2010 – The Songs of António Botto translated by Fernando Pessoa – republicação da tradução original por Fernando Pessoa para o Inglês; editado por e com uma introdução de Josiah Blackmore

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